[CRÔNICA] Quando o futebol americano vinga a história

[CRÔNICA] Quando o futebol americano vinga a história

Nosso escritor Carlos Massari fala sobre a vitória de Central Michigan sobre Oklahoma State na crônica da semana

Essa crônica poderia ser sobre acreditar no impossível. Poderia ser sobre não desistir nunca. Poderia ter algum mote de Raul Seixas e “Tente Outra Vez” ou algo do tipo. Mas vamos fugir um pouco dos clichês e focar na história.

Os Chippewas são uma tribo que habita o norte dos Estados Unidos e o sul do Canadá. Em terras estadunidenses, vive em Michigan, Wisconsin, North Dakota e Minnesota. O programa de futebol americano de Central Michigan tem seu nome devido a eles, que sempre ocuparam a região – e ainda ocupam, obviamente em número muito menor que em tempos longínquos do passado.

A história dos Estados Unidos por muito tempo foi a história do genocídio dos povos indígenas. A expansão territorial, o sonho dourado da ida para o oeste, os confrontos pela terra dos nativos, que para os imigrantes europeus, era terra sem dono. Os Chippewas, obviamente, não foram exceção.

Do outro lado, estava a figura do cowboy. O homem que desbravava o território e que lutava contra os nativos, a figura do norte-americano caipira. Em muito, lembra o nosso bandeirante. E apesar de serem dois tipos de pessoas que promoveram basicamente genocídio, ambos são exaltados até hoje em seus respectivos países.

No último sábado, enfrentaram-se Oklahoma State e Central Michigan. Cowboys de um lado, Chippewas de outro. Novamente, os primeiros muito mais fortes e munidos de recursos. Mas o futebol americano tratou de vingar a história e dar a vitória à equipe que carregava consigo os símbolos indígenas.

Oklahoma State joga na Big 12, entrou na partida ranqueado como #22 e sonhava com o título nacional. Central Michigan é apenas mais um time pequeno da Mid-American Conference, apesar de estar talvez com um dos melhores elencos de sua história. O favoritismo dos Cowboys era gigantesco – 19,5 pontos nas casas de apostas. As diferenças de investimentos são quase tão grandes como de capacidade bélica dos personagens do século XVIII.

Parecia que o jogo não traria grandes surpresas e repetiria a história. No primeiro quarto, touchdowns de Jalen McCleskey e Zac Veatch em passes de Mason Rudolph deram a liderança de 14 a 0 para Oklahoma State. Só no segundo quarto que Central Michigan começou a mostrar serviço e diminuir a vantagem, conseguindo ir para o intervalo com a desvantagem em sete pontos – 17 a 10.

Se vocês leram nosso preview da MAC, sabem que Cooper Rush é um dos principais quarterbacks do College Football nesse ano. Ele tem todas as características físicas que a posição pede, além de estar melhorando consideravelmente na tomada de decisões. No terceiro quarto, concectou com Tyler Conklin para empatar o jogo em um touchdown de cinco jardas. O upset começava a se tornar bastante provável.

NCAA Football: Central Michigan at Oklahoma State

Depois de um field goal dos Cowboys, Cooper voltou a trabalhar. A campanha foi sensacional – 95 jardas em pouco mais de quatro minutos, culminando com o quarterback achando Devon Spading em um touchdown de 31 jardas. A nove minutos do final, Central Michigan liderava Oklahoma State por 24 a 20.

A tradição oral dos Chippewas conta que sete seres poderosos – chamados miigis – apareceram para a tribo nos tempos primórdios para ensinar sobre a vida. Um deles era mais poderoso e começou a matar as pessoas. Os outros o baniram para o oceano e continuaram dando lições valiosas à tribo até que decidiram que tudo já estava dito e que também era hora de retornar para o fundo do mar.

Poderíamos dizer que Cooper Rush é um miigi, mas isso seria um equívoco. Rush é um mortal, e como todo mortal, comete erros. Após Oklahoma State voltar à frente no placar, ele começou uma nova campanha… mas dessa vez foi interceptado. A única das quarenta e duas bolas lançadas pelo quarterback Chippewa que foi parar nos braços de um Cowboy. Em um momento péssimo, possivelmente custando a derrota. Mas a história daria a ele uma nova chance.

Oklahoma State tentou gastar todo o relógio, e conseguiu. Só que na quarta descida, a poucos segundos do fim, em vez de ir para o punt, decidiu segurar a bola com seu quarterback Mason Rudolph e não arriscar um retorno para touchdown. Pressionado, Rudolph cometeu intentional grounding já com o cronômetro zerado. Os árbitros entenderam que o jogo não pode acabar em falta, dando assim um “untimed down” para Central Michigan.

O futebol americano universitário usa um corpo de oito juízes em suas partidas. Até 2015, eram sete. Vamos usar a licença poética nessa crônica e dizer que os sete originais sim eram os miigis. E eles distorceram a regra para corrigir a história.

Faltas que tem como resultado a perda de um down – como é o caso de intentional grounding – não dão um untimed down para o oponente quando o relógio acaba. Foi um erro de arbitragem que permitiu essa jogada histórica:

Ninguém poderia esperar tamanha epicidade. Cobrindo o jogo pelo twitter, eu já tinha até mesmo desligado o stream. Só pode ter sido obra dos miigis. Completado o upset, eles voltam para o oceano após finalmente terem visto os Chippewas derrotando os Cowboys. E em território inimigo.

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carlosmassari

Carlos Massari é graduado em Comunicação Social - Midialogia pela Unicamp e atualmente faz pós-graduação em Jornalismo Esportivo. É viciado em todos os tipos de esportes. Cinema, cervejas e viagens também o fazem feliz.