[HISTÓRIA] Single Wing: A revolução do início do século XX

[HISTÓRIA] Single Wing: A revolução do início do século XX

Todo jogo de estratégia, como é o caso do futebol americano, é formado por ideias sendo criadas, defendidas e superadas. É por isso que vemos formações como o wildcat e conceitos como a read option aparecendo, sendo mortais por um tempo e, aos poucos, perdendo espaço. Por um tempo, não foi assim. No final do século XIX e no início do século XX, o jogo era de pura força. Mas mudanças aconteceram e permitiram o surgimento da primeira grande revolução estratégica: a single wing.

Para contar melhor essa história, vamos começar com três pequenos contos introdutórios:

1. O homem que mudou o jogo

Não, não é o filme sobre o general manager do Oakland Athletics com o Brad Pitt.

Seu nome era Glenn Warner. Caipira, nascido numa fazenda no século XIX. Ele foi para a cidade grande fazer a high school, era um ótimo jogador de baseball, interessado em artes e considerado bastante inteligente. Ao término, foi enviado para o rancho da família, no Texas, para trabalhar. Ficou lá por três anos e decidiu que não era o que queria para a sua vida.

Voltou para a cidade grande com uma ideia: pelos conhecimentos adquiridos na fazenda, poderia apostar em corridas de cavalo e ganhar a vida assim. Ele entendia de cavalos, afinal. Infelizmente, os planos não deram muito certo e logo Warner estava falido.

Ele precisava pedir mais dinheiro para o seu pai, mas isso provavelmente causaria péssimas reações. Então, se lembrou: o sonho do velho era ter um filho advogado. Warner usou a desculpa de que entraria na faculdade de direito para enviar uma carta à família pedindo ajuda financeira. Deu certo. E assim, ele chegou na Cornell University.

Glenn Warner em 1894.

Logo de cara, foi visto pelo treinador da equipe de futebol americano. Ele nunca tinha sequer pegado numa bola oval em sua vida, mas tinha os atributos físicos perfeitos para um offensive lineman: alto, forte e corpulento. Warner teve então seu primeiro contato com o esporte que revolucionaria. E, pouco depois, ganharia seu apelido: “Pop”, por ser bem mais velho que os demais alunos.

2. O sangue que banhava os campos

Vinte jogadores morreram na temporada de College Football de 1905.

Três deles em um mesmo jogo, que ficou conhecido como “colheita de sangue”, envolvendo nada menos que Yale e Harvard – simplesmente a elite intelectual norte-americana.

Imaginem o impacto que jovens brancos e possivelmente ricos, todos com futuros promissores, morrendo em número muito elevado praticando um esporte, teve na sociedade.

O grande problema eram as “formações em massa”, principalmente a flying wedge. Os jogadores podiam agarrar e segurar o carregador da bola e avançar com ele em direção à defesa, gerando um confronto corporal que, como é possível imaginar, era bizarro.

Aliás, o termo “flying wedge” tem origem militar: era uma formação bélica usada em tempos longínquos, antes do surgimento das armas de fogo.

Com tanto sangue sendo derramado e tantas vidas sendo perdidas, o futebol americano corria sério risco de ser proibido.

Para evitar a proibição, o presidente Teddy Roosevelt pediu que mudanças drásticas nas regras fossem feitas. E elas vieram: as formações em massa foram banidas, a distância necessária para um first down subiu de cinco para dez jardas, o passe para frente foi legalizado, um máximo de seis jogadores poderia ser colocado na linha de scrimmage.

Estava aberto o caminho para a criação da single wing.

3. Enterrem a bola na curva do rio

O racismo teve uma contribuição fundamental na história do futebol americano. Explico: O capitão Richard Henry Pratt criou, em 1879, a Carlisle Indian Industrial School. Uma escola/universidade que tinha como ideia educar a população nativa americana dentro dos valores esperados pela sociedade eurocêntrica da época. O lema de Pratt era “kill the indian, save the man” (mate o índio, salve o homem).

Muita coisa acontecia em Carlisle. A educação ia desde a infantil até a universitária, passando por tudo que era possível para tentar “civilizar” os nativos. Agressões físicas eram comuns para quem não apresentasse comportamento considerado adequado. Até seu fechamento, em 1918, o lugar recebeu mais de 10.000 estudantes, das mais diversas tribos.

Como possuía caráter universitário, Carlisle tinha seu próprio time de futebol americano. O Carlisle Indians disputou o College Football entre 1893 e 1917. Só 24 anos, mas o suficiente para ser o berço da revolução.


Passadas as introduções, podemos seguir em frente com essa história.

Glenn “Pop” Warner passou a ser visto costumeiramente como uma mente brilhante do esporte. Tanto que, apenas um ano após se graduar em Cornell, foi contratado para ser head coach de Georgia. Ele rodaria por muitas universidades, algumas delas de renome, e teria até uma primeira passagem pelos Indians, na qual esboçaria a revolução que faria mais tarde, até em 1907 – dois anos após as mudanças drásticas de regras – voltar a Carlisle.

Carlisle Indians, 1908.

Apesar das mudanças, o principal conceito do jogo de futebol americano ainda era a força. Corridas por fora dos tackles eram raras, tentativas de passes mais ainda (apesar de legalizado, o passe para frente não era muito utilizado porque, quando incompleto, resultava em turnover. Isso só mudaria anos mais tarde). A questão central era conseguir passar por cima dos adversários, pelo meio da defesa.

Warner tinha que lidar com esse problema em Carlisle porque os índios eram menores que os adversários. Não tinham tanta altura, não tinham tanta força e normalmente estavam em desvantagem. Era necessário um sistema que explorasse o ponto mais forte da equipe nativa-americana: a velocidade. E foi assim que surgiu a Single Wing, e que o esporte mudou para sempre.

Pop Warner cria a Single Wing

O principal conceito da Single Wing é a possibilidade de constantemente enganar a defesa, usando muito disfarce e muita mudança de direção.

A base da single wing.

O snap é feito diretamente para um “tailback”, que se movimenta (podendo até girar em 360 graus) e, a partir daí, ou mantém a bola, ou entrega para um dos demais backs existentes. A linha ofensiva é desbalanceada, o que ajuda a confundir a defesa.

Na jogada mostrada abaixo, por exemplo, o tailback recebe o snap e mantém a bola consigo, mas segue dois bloqueios chaves: o do fullback e o do right guard, que deixa a sua posição inicial na linha de scrimmage para liberar caminho para o avanço:

Com dez atletas bloqueando, inclusive o quarterback (BB na imagem), que na Single Wing é apenas mais um atleta responsável pela batalha nas trincheiras, é possível até mesmo fazer double teams em defensores chaves e, normalmente, o buraco esperado estará vazio.

Até hoje, um dos principais pontos positivos de um ataque terrestre eficiente é deixar a defesa “adivinhando” onde é que a bola está. O introdutor disso foi Pop Warner. Com tantos atletas que poderiam estar com a posse e tantas mudanças de direção como o esquema permite, era comum que os defensores e até mesmo os árbitros errassem completamente e o verdadeiro carregador pudesse ir livre até a endzone.

Outro detalhe interessante é que, na época, os times costumavam ir para o punt até mesmo no first down quando as campanhas começavam próximas à própria endzone. Sendo assim, o tailback precisava ter três grandes habilidades: como corredor, passador e punter.

O sucesso de Carlisle

Pop Warner ficou à frente dos Indians até 1914. Nenhuma dessas temporadas foi invicta, mas em quatro delas a equipe conheceu apenas uma derrota, com campanhas de 10-1 em 1907, 11-1 em 1911, 12-1-1 em 1912 e 10-1-1 em 1913.

Na temporada de estréia, o único revés foi contra Princeton. A campeã nacional, Penn, foi batida pelos Indians com facilidade: 26 a 6, dentro de casa. Foi também a única derrota sofrida pelo adversário.

O título nacional nunca veio, apesar de os métodos da época serem muito contestáveis. Mas ninguém gostava de enfrentar Carlisle, e mesmo para as universidades mais fortes, marcar o esquema de Pop Warner era um tormento.

Não demorou para que a Single Wing se tornasse a formação canônica do futebol americano. Logo, todas as principais equipes do College Football a estariam usando.

O legado da Single Wing

Em todos os níveis do futebol americano, a Single Wing tornou-se a formação dominante. Pittsburgh foi nove vezes campeã nacional entre 1924 e 1938 a utilizando. Texas também teve sucesso. Notre Dame, Stanford, Iowa, Michigan, TCU…

A formação estava por todo lado e fazia dos tailbacks capazes de correr, passar e puntear grandes estrelas. Jim Thorpe, na Carlisle de Pop Warner, foi a primeira delas.

Na NFL, o último time a utilizá-la foi o Pittsburgh Steelers, em 1952. Desde então, diversas descendentes diretas são vistos dentro de campo.

A spread offense é bisneta da Single Wing. O wildcat é ainda mais próximo. E a formação que Florida usava nos tempos de Tim Tebow. Segundo Bill Belichick, era ela mesma, só que em uma versão moderna.

Ainda hoje, é comum vê-la sendo usada nos jogos de high school – os times tem dificuldades de encontrar bons quarterbacks na adolescência e acabam recorrendo a formações que dispensam o uso do signal caller e que permitem vencer usando a agilidade dos backs. E não se enganem: apesar de ser um sistema centenário, a Single Wing é muito difícil de ser defendida.

No livro “The Art of Smart Football”, de Chris B. Brown, é relatado o episódio de quando Sean Payton, lendário técnico do New Orleans Saints, estava suspenso da NFL devido ao esquema bounty gate e se dedicou a treinar o time de high school de seu filho. Enfrentou um time que usava a Single Wing e sofreu uma lavada. Semanas depois, na revanche, passou horas e mais horas tentando desvendar como parar aquele ataque. Desenvolveu um plano de jogo similar a um que faria na NFL. Não funcionou.

Keith Piper, técnico da Denison University, que usou a Single Wing como base entre 1977 e 1992, disse: “O que as pessoas não entendem sobre a Single Wing é que ela nunca foi superada. Ela funciona. Mas o futebol americano é a moda dos homens. Técnicos não usam a Single Wing porque não querem estar fora da moda”.

Um dia, ela esteve na moda. E até hoje, influencia as tendências. Tudo isso é cortesia de Pop Warner e da Carlisle Indian Industrial School.

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carlosmassari

Carlos Massari é graduado em Comunicação Social – Midialogia pela Unicamp e atualmente faz pós-graduação em Jornalismo Esportivo. É viciado em todos os tipos de esportes. Cinema, cervejas e viagens também o fazem feliz.