[HISTÓRIA DO CFB] O.J. Simpson, “The Run” e a Rivalidade USC-UCLA

[HISTÓRIA DO CFB] O.J. Simpson, “The Run” e a Rivalidade USC-UCLA

O.J. Simpson é um personagem da história norte-americana. Desde a década de 1960, seu nome ocupa as páginas dos noticiários – no início, apenas o esportivo, mas depois de negócios, de entretenimento e de polícia. O que ele teve como atleta brilhante, teve também como uma pessoa problemática e disfuncional. Para conhecer mais sobre essa história, recomendamos o excepcional documentário “O.J.: Made In America”.

Mas esse post se resume à década de 1960, quando Simpson era apenas um atleta universitário conhecendo seus primeiros momentos de estrelato. Ele chegou à USC em 1967, uma época na qual UCLA tinha um domínio recente na conferência AAWU (a atual PAC-12) e havia vencido os dois últimos confrontos decisivos, ambos valendo vaga para o Rose Bowl. As duas são as principais universidades de Los Angeles, e tem uma das maiores rivalidades do esporte norte-americano.

Tanto USC Trojans quanto UCLA Bruins são equipes de sucesso no College Football: a primeira tem 37 títulos de conferência, e a segunda, 17. São as maiores campeãs da PAC-12. E, principalmente, se odeiam. A semana que antecede o confronto anual entre as duas é historicamente cheia de atividades preparatórias, fazendo com que os dois campus respirem a partida, vivam por ela, levantem, comam, durmam por ela.

Ingresso para o confronto de 1956.

Ingresso para o confronto de 1956.

Em 1965, o confronto definiria o representante da conferência no Rose Bowl. Foi emocionante, e os Bruins conseguiram uma virada que até hoje é lembrada: com quatro minutos para o final, os Trojans lideravam por 16 a 6 e tinham a posse de bola, parecendo destinados à vitória. Mas um fumble do quarterback Troy Winslow devolveu a bola aos rivais, que marcaram um touchdown, recuperaram um onside kick e voltaram a atingir a end zone, conseguindo um improvável triunfo por 20 a 16 e a vaga.

No ano seguinte, outra vitória para UCLA, mesmo sem o quarterback titular, Gary Beban (responsável pelos dois passes para touchdown da virada de 1965), que havia machucado o tornozelo na semana antes da partida. Mas Norman Dow, em sua primeira partida no futebol americano universitário, ajudou os Bruins a bater os Trojans por 14 a 7, deixando ainda mais frustrados os torcedores da equipe vermelha e amarela.

E então veio 1967. Era o ano de O.J. Simpson, que fazia sua temporada de estreia no College, já demonstrando um talento único, mas também era o ano de Beban, que como Senior, queria fechar sua carreira universitária com chave de ouro e liderar sua equipe a mais um título. O confronto, no dia 18 de novembro, valia não apenas novamente a vaga no Rose Bowl, como discutia-se muito a possibilidade de fazer com que ou o running back dos Trojans, ou o quarterback dos Bruins, acabasse com o Heisman Trophy.

O cotejo começou equilibrado: Greg Jones correu para 12 jardas e fez 7-0 Bruins, mas Beban lançou uma pick-6 para Pat Cashman, que retornou 55 jardas e deixou tudo igual. O.J. Simpson começou a aparecer no segundo quarto, colocando USC à frente com uma corrida de 13 jardas. Mas as equipes logo estariam empatadas novamente, com o quarterback de UCLA aparecendo e lançando um passe perfeito para George Farmer chegar à endzone.

Os Bruins pareciam ter o controle da partida e levavam muito mais perigo em suas campanhas ofensivas. Foram dois field goals perdidos pelo kicker Zenon Andrusyshyn, que também erraria o extra point depois de Beban acertar um touchdown para Dave Nutall.

E aí a mágica aconteceu.

O esporte é fascinante pelo inesperado. Pelas jogadas que parecem impossíveis, pelos momentos que trazem incredulidade – seja de forma positiva ou negativa. E é preciso de atletas muito talentosos (ou, às vezes, de muita sorte) para que a história se faça.

Bruins 20, Trojans 14. Terceira para sete da linha de 36 do campo de defesa de USC. Toby Page, o quarterback, vê os linebackers se posicionando para cobertura de passe e chama um audible para uma corrida. Uma corrida perdendo o jogo, em uma terceira para sete, no campo de defesa, no último período.

O.J. Simpson pega a bola. 64 jardas, touchdown. “The Run”.

USC ganharia de Indiana no Rose Bowl por 14 a 3 e seria considerada campeã nacional de 1967. Gary Beban venceria o Heisman Trophy, ainda assim, mas ele seria de Simpson no ano seguinte.

Beban nunca lançou um passe na NFL e nem teve uma carreira diretamente com futebol americano em nenhum nível ou função, apenas fazendo aparições como comentarista no canal de TV de UCLA. Simpson quebrou diversos recordes como profissional, virou estrela e cinema, fazendo filmes como “Corra que a Polícia vem aí” e “Inferno na Torre”, até ter sua figura pública, que até então era heroica, destruída por casos brutais de violência doméstica contra sua esposa e, mais tarde, a acusação de tê-la assassinado.

Mas a rivalidade entre USC e UCLA continua intacta. Em algumas épocas, com uma equipe melhor que outra, em outras, com mais equilíbrio. Mas sempre parando os campus, fazendo festas bonitas e jogos memoráveis – apesar de nenhum tanto como esse.

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carlosmassari

Carlos Massari é graduado em Comunicação Social – Midialogia pela Unicamp e atualmente faz pós-graduação em Jornalismo Esportivo. É viciado em todos os tipos de esportes. Cinema, cervejas e viagens também o fazem feliz.