[CRÔNICA] Peito de Nick Saban e braço de Tua Tagovailoa dão mais um título a Alabama

[CRÔNICA] Peito de Nick Saban e braço de Tua Tagovailoa dão mais um título a Alabama

Nick Saban não é um homem que gosta do fracasso. É verdade que a maior parte das pessoas não gostam, mas com ele é uma característica inata. Quando pulou fora do barco afundando do Miami Dolphins para assumir Alabama, sabia que suas chances de se tornar uma lenda no College, em um dos mais tradicionais programas existentes, eram muito maiores que em uma franquia que ainda hoje nunca conseguiu voltar ao topo. Tomou ali uma decisão acertada e iniciou uma dinastia.

Desde que chegou ao Crimson Tide, só duas vezes Saban soube o que era perder mais que dois jogos em uma temporada – na estreia, em 2007, quando ainda não tinha dado sua cara ao programa, e em 2010. Foi aos poucos construindo uma poderosa rede de recrutamento e chegou nessa segunda-feira ao seu quinto título nacional em apenas onze anos.

Se você conhece pessoas competitivas e verdadeiramente boas no que elas fazem, sabe que odeiam perder. Não, não é simplesmente ficar com um incômodo ou uma sensação ruim, mas um desespero real, uma sensação de que uma tragédia grega aconteceu e precisa ser revertida. Já reparou, na NFL, como o New England Patriots sempre se recupera em grande estilo depois de sofrer uma derrota? É a cabeça de Bill Belichick e Tom Brady entrando em parafuso e fazendo qualquer coisa no mundo que seja necessária para apagar o gosto amargo de um revés.

Alabama era franca favorita na decisão contra Clemson em 2016/17. A defesa performou abaixo do esperado e viu um heróico DeShaun Watson fazer a partida da sua vida para levar o troféu à Carolina do Sul e frustrar os planos de Nick Saban. Vencendo por dez pontos ao começo do último período, o Crimson Tide sofreu uma inesperada e dolorida derrota que ressoaria na alma de seu lendário treinador. O passe recebido por Hunter Renfrow no último segundo de partida não poderia ser repetido – não tão rápido, não apenas um ano depois.

Saban entrou em campo na decisão de segunda-feira com sangue nos olhos, com a sensação de quem precisa dar descarga na tragédia e fazer com que sua glória se renove. Pouco a pouco, foi sendo frustrado. A defesa, apesar de não ser brilhante, não era o maior problema, mas sim a exposição de Jalen Hurts. O quarterback (que lançou só uma interceptação em 2017) não conseguia mover a bola e tinha apenas vinte e uma jardas aéreas quando chegou o intervalo. O placar mostrava 13 a 0 para o Georgia Bulldogs, um rival de conferência.

Perder de novo não era opção. Dois vices em sequência? É o tipo de coisa que começa a fazer com que um homem seja lembrado mais pelos fracassos que pelos sucessos. Mesmo com quatro títulos nacionais  em uma década, começaria a surgir um início de chacota, uma associação de perder em momentos decisivos com o passado recente de Alabama. Nick Saban se viu frente a frente com uma decisão difícil, que poucos técnicos teriam a coragem de puxar o gatilho: deveria colocar no banco seu quarterback, autor de dezesseis touchdowns aéreos na temporada, mas totalmente inefetivo nessa partida, e chamar a campo, com uma enorme responsabilidade, o true freshman Tua Tagovailoa?

Tuaniga Tagovailola, o jovem quarterback havaiano de nome difícil, entrou em campo e passou a viver uma montanha russa de emoções. Um three and out que não deu novas esperanças a seu time foi seguido por uma campanha fantástica, na qual escapou de um sack certo para converter uma terceira descida longa e depois lançou um touchdown bonito para Henry Ruggs III. Como nada é fácil, quando voltou a campo foi imediatamente interceptado pela defesa de Georgia.

Mas o jogo era outro com Tua. E Saban voltou a ser confiante, vendo sua equipe pouco a pouco minando a resistência e a liderança de Georgia. Alabama empatou o jogo, teve a chance de vencer no tempo regular. O kicker Andy Pappanastos teve a bola do título, mas não era de seus pés que o troféu tinha que sair. A história é ardilosa e premia os nomes certos. O triunfo tinha que ser do peito de Saban e do braço do quarterback no qual ele apostou.

Georgia teve a primeira posse de bola da prorrogação e anotou um field goal. O herói poderia ter sido o kicker semi-brasileiro de óculos e bigode hipster chamado Rodrigo Blankenship, fazendo com que essa crônica fosse totalmente diferente. Mas não foi o que os deuses do futebol quiseram.

Na primeira descida, Tua Tagovailola fez uma jogada de calouro: sofreu um sack horroroso, perdendo dezesseis jardas e deixando seu time em uma situação complicadíssima. Na segunda descida, Tua Tagovailola fez uma jogada de gênio: leu perfeitamente a defesa, moveu o safety com os olhos, encontrou um recebedor livre na endzone. Touchdown. Alabama, campeã nacional pela décima sétima vez, 26, Georgia 23.

Se Nick Saban não tivesse a coragem de trocar Jalen Hurts por Tua Tagovailola no intervalo, nada disso teria acontecido. Estariam rindo do segundo vice-campeonato consecutivo de Alabama, dizendo que o treinador perdeu seus tempos gloriosos, que não é mais o mesmo rei do College Football. Mas ele teve. Fez o que poucos fariam, o que era necessário para chegar mais uma vez ao topo do mundo. A história a ser contada sobre esse jogo é a do técnico que colocou seu quarterback no banco no intervalo em detrimento a um true freshman que estava pronto para encarnar o espírito da Maré Escarlate em mais uma noite cheia de louros.

As piadas são sobre Georgia, sobre como mais uma vez um time do estado sofreu uma virada marcante em um jogo decisivo e perdeu uma prorrogação depois de ter duas mãos no troféu no tempo regular. As glórias são de Alabama, do peito de Nick Saban e do braço de Tua Tagovailola. A história é dos vencedores e mais uma vez o lendário treinador soube se colocar do lado certo.

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carlosmassari

Carlos Massari é graduado em Comunicação Social – Midialogia pela Unicamp e atualmente faz pós-graduação em Jornalismo Esportivo. É viciado em todos os tipos de esportes. Cinema, cervejas e viagens também o fazem feliz.